Luz, mais luz. 
(Goethe)
Um gesto libertário, errático e espontâneo, desenha na escuridão um rastro luminoso e furta-cor. A paisagem, flagrada pela fotografia, transmuta-se ao mimetizar as transformações que Patty Simon opera em sua subjetividade de mulher e de ser criativo, que num dado momento pressente a necessidade de ultrapassar os limites impostos pela técnica da linguagem eleita para ser sua plataforma de expressão.
O poeta alemão Johann Wolfgang von Goethe, estudioso da teoria das cores, entendia "que mesmo órgãos naturais como o olho requerem imaginação para ver". Segundo ele, faz-se necessária uma espécie de introvisão – apreensão aparentemente espontânea e imediata de relações – para que a faculdade do visível ganhe sentidos além das aparências. Logo, ver de forma complexa e íntegra, está ligado ao processo de auto-formação do ser humano. 
As estratégias estéticas criadas por Patty Simon, na série Mutações Intimistas, espelham uma necessidade de dar a ver essa introvisão. Trata-se de uma paisagem inexistente, que não pode ser percebida a olhos nus, mas tão somente por meio da poética e da introspecção. Ao invés de registrar o mundo, a artista transfigura-o a golpes de luz. Fotografia que é feita não apenas com os olhos, mas também com o corpo e a mente em conexão com os mistérios da criação não dogmática.
Fotografia-performance que resulta na expressão de um mundo paralelo por onde a artista transita na busca de sua essência renovada e nos convida a desvendar seus simbolismos. Uma catarse que implica numa forma revigorada de percepção do entorno. Imaginação que impulsiona o gesto criativo por um labirinto de acasos, posto que a artista deliberadamente aposta no gesto instintivo e não racional. 
Essa mis-en-scène criada por Patty Simon leva, necessariamente, o observador dessas provocativas obras, a convocar seus processos cognitivos mais livres para transitar por essas paisagens feéricas que têm a potência de nos conduzir a um estado elevado de percepção, como pontuou Goethe. A realidade transfigurada é uma paisagem poética e política que pode nos levar a compreensão mais elevada sobre os desígnios da vida. A arte e a transcendência se unem nessas mutações intimistas e inspiradoras.
Eder Chiodetto

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